Confesso que quando Elle foi anunciada, compartilhei da mesma dúvida que muitos fãs tiveram. Afinal, Legalmente Loira sempre pareceu uma história completa. Elle Woods é uma personagem que marcou os anos 2000 justamente por quebrar os estereótipos ao unir dois universos que raramente conviviam na época: o da "patricinha" apaixonada por moda, maquiagem e pela cor rosa, com o de uma mulher inteligente, madura e extremamente competente. Sua jornada já parecia encerrada. Então, por que voltar ao passado e contar sua adolescência?
A resposta da série acaba sendo mostrar que a Elle que conhecemos nos filmes não nasceu pronta. Aos quinze anos, ela ainda é uma adolescente vivendo em uma realidade completamente diferente daquela que veremos anos depois. Na série, vemos os Woods deixarem temporariamente Los Angeles e se mudarem para Seattle, após um erro médico de Wyatt Woods, que é cirurgião plástico. Essa mudança funciona quase como um choque cultural pra família.
Los Angeles representa tudo aquilo que sempre associamos à Elle: sol, praias, glamour, grifes e uma atmosfera vibrante de Hollywood. Seattle, por outro lado, aparece seu oposto. É uma cidade cinzenta, chuvosa e muito mais fechada. Pela primeira vez, Elle se vê em um ambiente que não compartilha dos mesmos códigos sociais que ela aprendeu durante toda a vida. E isso muda completamente sua experiência.
Ao chegar à nova escola, Elle sofre bullying desde o primeiro dia. O mais curioso é que esse preconceito nasce antes mesmo que qualquer colega a conheça realmente. Ela é julgada por ser loira, por gostar de rosa. É um julgamento baseado apenas na aparência. Isso torna a situação frustrante.
Ao mesmo tempo, a série não ignora que Elle cresceu cercada de privilégios. Ela vem de uma família rica, sempre viveu em um ambiente extremamente confortável e nunca precisou lidar com uma realidade tão diferente da sua. Por isso, viver em Seattle também funciona como um processo de amadurecimento.
De modo geral, é triste acompanhar a jornada de Elle na adolescência porque em vários momentos fica a impressão de que ela precisa se adaptar para ser aceita. E isso causa certo desconforto para quem conhece a personagem dos filmes. Em Legalmente Loira, uma das maiores qualidades de Elle é justamente nunca abandonar quem ela é. Ela não deixa de usar as roupas que gosta, da cor que gosta, para ser levada a sério. Não muda sua personalidade para agradar os outros. Continua sendo gentil, educada, divertida e extremamente confiante, mesmo quando é constantemente subestimada.
A série parece querer explicar como essa confiança foi construída. Tudo aquilo que Elle enfrenta em Seattle provavelmente será responsável por formar a mulher que conheceremos anos depois.

De maneira inesperada, a série criou uma verdadeira guerra de shippers. De um lado estão aqueles que torcem por Dustin. Do outro, os que preferem Miles.
Dustin é a primeira pessoa em Seattle com quem Elle realmente cria uma conexão. Os dois se conhecem de forma inusitada, quando a mãe de Elle quase o atropela enquanto ele andava de skate, justamente no primeiro dia na escola. A partir desse momento, a série deixa diversos indícios de que ele ocupará um papel importante em sua adaptação. Dustin está constantemente ao lado de Elle, principalmente porque o armário de Elle termina sendo ao lado do armário de Dustin. Ainda assim, existe um certo descontentamento em sua aproximação. Boa parte do interesse inicial de Dustin está ligada à influência de Elle Woods. Como ele deseja reunir informações para expor o diretor da escola, aproxima-se de Elle também porque acredita que ela, que já tem uma imagem super negativa na escola, pode ajudá-lo nesse objetivo. Fica difícil enxergar sua relação com ela como um romance genuíno desde o início.
Miles, por outro lado, desperta outra impressão. Desde o primeiro encontro existe uma química evidente entre os dois. O roteiro constrói uma atração quase imediata, perceptível nos olhares, nas conversas e na forma como ambos parecem naturalmente atraídos um pelo outro. No entanto, essa relação também nasce cercada por controvérsias. Miles namora outra garota quando essa aproximação começa, e o fato de sua namorada possuir várias características semelhantes às de Elle torna essa situação ainda mais delicada. Embora o relacionamento termine pouco depois, o flerte anterior acabou prejudicando a imagem do personagem.

Curiosamente, foi outro shipper que mais me chamou atenção. Desde os primeiros episódios, eu senti uma química surpreendente entre Elle e Liz. A amizade das duas começa da pior maneira possível, principalmente porque Elle acaba sendo responsabilizada pela demissão de Donna, mãe de Liz e secretária financeira do diretor. Ainda assim, à medida que a convivência aumenta, a hostilidade dá lugar a uma amizade muito natural. As duas se desafiam, se transformam e desenvolvem uma confiança que cresce episódio após episódio. Não é difícil entender por que muitos espectadores passaram a enxergar nelas uma química, mesmo que a intenção da série seja retratá-las apenas como melhores amigas, a dinâmica entre Elle e Liz acaba se tornando uma das relações mais cativantes da primeira temporada.
Mas existe um detalhe curioso para quem conhece os filmes. Independentemente de qual relacionamento aconteça durante a série, ele não será definitivo. Quando chega à universidade, Elle está namorando Warner há cerca de dois anos e meio. É justamente o término desse relacionamento que dá início aos acontecimentos de Legalmente Loira. Depois disso, ela conhece Emmett, que se torna seu parceiro profissional, namorado e posteriormente, marido.
Emmett nunca tenta mudar Elle. Nunca a diminui por gostar de moda, de rosa ou de tudo aquilo que faz parte de sua personalidade. Pelo contrário, ele a admira exatamente como ela é. E é justamente por isso que a história dos dois tenha permanecido tão querida pelos fãs durante tantos anos.
Por enquanto, Elle parece menos interessada em responder perguntas sobre o futuro da personagem e mais em explicar como ela se tornou a mulher forte e inspiradora que conhecemos. E, apesar das dúvidas iniciais, a série acerta ao mostrar que até mesmo alguém tão confiante quanto Elle Woods precisou, em algum momento, aprender que não precisava mudar para ser aceita.