Análise | Backrooms: Um Não-Lugar (2026), terror liminar de Kane Parsons

Olá, fofuxos! Depois de analisar o terror Obsessão (2026), decidi assistir outro filme de terror que tem feito muito sucesso em bilheterias: Backrooms: Um não-lugar, de Kane Parsons. Quero deixar claro que, eu não tinha nenhum conhecimento prévio sobre Backrooms, embora o conceito já exista há alguns anos na internet. Eu assisti ao filme completamente às cegas, sem saber exatamente o que esperar, e uma das primeiras coisas que eu aprendi é que Backrooms é uma experiência antes de ser uma história. 

É um terror que desperta sensações que, em algum momento da vida, todos nós já sentimos. Você já olhou para um corredor longo demais? Um daqueles corredores em que tudo o que existe à sua frente parece ser apenas mais corredor? Um espaço onde a saída não é visível e onde, por alguns segundos, você sente uma estranha inquietação. É uma sensação difícil de explicar, algo entre ansiedade, receio e medo.

Para mim, essa sensação é a essência de Backrooms. Não se trata apenas de um espaço gigantesco que parece não ter fim. Trata-se de um espaço que existe em um limiar entre o real e o irreal, entre a racionalidade e o irracional. Um não-lugar que desafia a lógica e ao mesmo tempo, parece estranhamente familiar. E talvez seja justamente por isso que essa ideia seja tão perturbadora para algumas pessoas.

É nesse contexto que conhecemos Clark (Chiwetel Ejiofor), um homem que nunca conseguiu alcançar o sucesso profissional que imaginava para si. Sua vida acabou reduzida a uma enorme loja de móveis à beira da falência. Fica claro desde o início que Clark está emocionalmente esgotado. O fracasso profissional, a deterioração do casamento e a possível dependência do álcool o conduzem a uma espiral de isolamento. Quando sua esposa finalmente o expulsa de casa, ele passa a viver dentro da própria loja, repetindo diariamente uma rotina sem propósito, cercado por espaços que simulam lares, mas que não abrigam ninguém.

É nesse período que ele começa a se consultar com a Dra. Mary Kline  (Renate Reinsve), provavelmente numa tentativa tardia de compreender a si mesmo e salvar os destroços de sua vida. Mas antes que qualquer reconstrução seja possível, algo extraordinário acontece. Durante uma noite aparentemente comum, uma queda de energia leva Clark a descobrir uma passagem para a Backrooms.

O mais interessante, é que Clark já habitava uma espécie de Backrooms emocional muito antes de atravessar para aquela dimensão. Sua vida já era marcada pela repetição, pelo vazio e pela sensação de estar preso em um lugar do qual não conseguia escapar. A dimensão que ele encontra não surge como uma ruptura da realidade, mas como uma extensão dela. Como se aquele labirinto impossível fosse apenas a manifestação física do estado mental em que Clark já vivia há anos. Por isso existe algo profundamente significativo no fato de Clark encontrar abrigo naquele não-lugar. A Backrooms não é apenas uma prisão para ele; é também um reflexo de sua própria existência.

Mas o problema nesse terror é que toda prisão confortável continua sendo uma prisão. Quando você permanece tempo demais em um espaço fechado, não importa o quão grande ele seja, você deixa de se perder no ambiente e começa a se perder dentro de si mesmo. O verdadeiro perigo da Backrooms não está apenas nos corredores e espaços infinitos, mas na forma como ela dissolve a identidade de quem entra nela.

Clark encontra naquele vazio uma justificativa para permanecer. Ele para de procurar a saída porque, em certo sentido, já havia desistido de procurar uma saída para sua própria vida.

É então que surge a Dra. Mary Kline que, ao decidir procurar Clark, ela também atravessa essa fronteira entre o conhecido e o desconhecido. Diferentemente de Clark, Mary encara aquele espaço com horror. Ela percebe imediatamente o caráter aprisionador daquele lugar. Como terapeuta, ela entende algo fundamental: Clark não está preso apenas fisicamente. Ele está preso emocionalmente.

A Backrooms parece funcionar como uma armadilha psicológica. Um lugar que ao mesmo tempo em que acolhe aqueles que chegam, também se alimenta deles. Como se desejasse sua presença, mas jamais permitisse sua partida.

As criaturas que habitam aquele espaço são assustadoras, mas talvez não sejam o elemento mais aterrorizante do filme. O verdadeiro horror está na possibilidade de que a própria Backrooms seja uma manifestação do vazio, da estagnação humana. Nós percebemos isso quando notamos que a própria Dra. Mary também têm suas questões psicológicas a tratar, e àquele lugar também se alimenta dos seus anseios mais profundos. Nós vemos essa ramificação de traumas, em alguns espaços que passam a retratar coisas particulares da vida, de um passado doloroso de Mary, e que possivelmente já estava lá muito antes dela nascer. 

Por isso, a Backrooms não é um terror tradicional! É um horror moderno, abstrato e muito confuso. Sua narrativa é fragmentada, sua lógica é instável e suas respostas são limitadissimas. Mas é justamente por isso que esse filme conversa tão bem com o mundo contemporâneo. Nós vivemos em uma época marcada pela ansiedade, pelo isolamento, pela sensação constante de inadequação. Nós estamos quase sempre procurando algo que talvez nunca encontremos, mas a Backrooms transforma esses sentimentos confusos e dolorosos em espaço físico.

Ela é um lugar que pode ser qualquer coisa e, ao mesmo tempo, não é nada. Um lugar onde nada existe além da turbulência do reflexo de uma mente cansada do mundo, cansada da rotina e cansada do próprio vazio. Por isso, pode ser difícil sair, por isso aqueles que tentam frequentemente voltam ao mesmo ponto, porque continuam a carregar as mesmas dúvidas, os mesmos medos e as mesmas feridas.

No fim, muito do que é a Backrooms está justamente nessa fronteira entre ser e não ser, estar e não estar, existir e desaparecer. Um espaço impossível que funciona como um espelho de nossos próprios traumas. É um terror que pode causar estranheza, e pode decepcionar porque foge do tradicional.

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