Análise | 'Hallow Road: Caminho Sem Volta', thriller psicológico dirigido por Babak Anvari



Olá, fofuxos! Eu trouxe desta vez um filme que fez o meu cérebro fritar. Não é um lançamento, mas ele é recém chegado no catálogo do Prime Vídeo, e depois de assistir, decidi dar minhas considerações.

À primeira vista, Hallow Road: Caminho Sem Volta se apresenta como um thriller de estrada. A trama acompanha um casal, Maddie (Rosamund Pike) e Frank (Matthew Rhys), que recebem uma ligação desesperada da filha adolescente (Megan McDonnell) após uma discussão familiar. Abalada pela discussão que se segue após revelar que está grávida, Alice foge de casa com o carro de seu pai e segue para uma região isolada cercada por uma floresta densa. Em pânico, ela liga para os pais dizendo que sofreu um acidente. A partir desse momento, o filme se transforma em uma corrida contra o tempo, acompanhando os pais enquanto tentam encontrá-la durante a madrugada.

No entanto, conforme a narrativa avança, os acontecimentos passam a desafiar a lógica e a própria realidade parece dobrar-se sobre si mesma. É justamente nesse ponto que Hallow Road deixa de ser apenas um suspense e revela sua verdadeira natureza: um drama psicológico sobre culpa, trauma e negação.

O filme chega ao fim sem oferecer respostas definitivas, mas espalha ao longo de sua narrativa diversas pistas que sugerem uma verdade oculta por trás dos acontecimentos, e a partir daqui só spoilers. 


Existam diferentes interpretações para Hallow Road: Caminho Sem Volta, a que mais me convence é a de que Alice já está morta desde o início da história. Sob essa perspectiva, tudo o que vemos a seguir deixa de ser uma simples corrida para salvá-la e passa a representar uma reconstrução psicológica criada por pais incapazes de lidar com a culpa e com a perda da própria filha.

A cena inicial é extremamente importante para compreender o que aconteceu. Sobre a mesa, vemos três lugares postos. Um prato está vazio, outro foi parcialmente consumido e o terceiro permanece praticamente intacto. Há também um copo quebrado, um detalhe que pode sugerir que uma discussão aconteceu horas antes. Na primeira cena de reação dos personagens, vemos que Meddie, ao acordar e ao caminhar pela casa nota que o alarme de incêndio está piscando, mas não há nenhuma incêndio e esse é um detalhe extremamente importante! Meddie tenta consertar o aparelho trocando a bateria, e ao perceber que a filha não estava em casa, decide enviar uma mensagem, preocupada com seu paradeiro, e é quando é possível observar parte do histórico da conversa entre as duas daquele dia. As mensagens foram trocadas horas antes e giram em torno do jantar da família. A última delas é enviada por Alice por volta das 18h, informando que chegaria atrasada.

Isso oferece uma possível explicação para a disposição da mesa. O prato vazio poderia ser o de Alice. Ela chega tarde ao jantar, encontra os pais já servidos e, revela que está grávida. A notícia desencadeia uma discussão, e Alice deixa a casa utilizando o carro da mãe. Observe que no filme é revelado que ela estava usando o carro do pai, o que posteriormente veremos ser uma inverdade. 

É nesse ponto que surge a grande questão, Alice realmente sofreu um acidente? Na minha interpretação, não. Alice teria saído para usar drogas e, quando liga para os pais em estado de desespero, estava sofrendo os efeitos de uma overdose. A partir dessa ligação, Maddie e Frank saem para procurá-la, seguindo a rota indicada pelo GPS do carro de Maddie, porque segundo a informação deles o carro do Frank estava com Alice.


O filme faz questão de destacar que o veículo de Maddie apresenta diversos problemas. Em determinado momento, Frank comenta que já havia agendado com o mecânico e que Maddie deveria ter levado o carro para o conserto. Esse detalhe, aparentemente banal, pode ter uma importância muito maior para a trama do que parece à primeira vista.

Em algum momento da busca, enquanto dirigem por uma estrada escura cercada pela floresta, os pais atropelam uma garota. É aqui que a teoria ganha força. Essa garota seria a própria Alice, que acabou se perdendo na região devido a um dos problemas do carro de Maddie: o GPS, que aparentemente não indica corretamente as rotas daquela área.

Frank, inclusive, comenta que a família costumava acampar na região, motivo pelo qual conhece o caminho correto. Em determinado momento, ele chega a afirmar que sabe qual direção seguir, mesmo quando ela diverge das instruções do GPS. Se tivesse confiado apenas no aparelho, provavelmente teria se perdido. É exatamente isso que pode ter acontecido com Alice.

Desorientada, ao avistar os faróis de um carro se aproximando na escuridão, corre em direção à estrada em busca de ajuda. Nesse momento, acaba sendo atropelada pelos próprios pais. Isso é implicitamente revelado quando Alice ao telefone: "Eu vejo vocês. Eu vejo os faróis." A frase parece indicar apenas que seus pais estão chegando. Mas, sob essa interpretação, ela ganha um significado muito mais sombrio, porque a Alice estaria vendo os mesmos faróis que a atropelaram anteriormente, ou seja, o carro dos pais chegando e a atropelando sem querer.

Com isso, o choque emocional é devastador e suas mentes simplesmente não conseguem processar o ocorrido. A mãe tenta desesperadamente reanimá-la. A intensidade da reanimação é tão extrema que chega a provocar o colapso do seu tórax. O pai, por sua vez, remove o corpo da estrada puxando-o pelas roupas, a deixando no frio da noite por horas. Nenhum dos dois consegue aceitar a realidade. Então acontece aquilo que o filme sugere de maneira metafórica: um "reset".

Não necessariamente um fenômeno sobrenatural, mas um mecanismo psicológico. Diante de um trauma impossível de suportar, suas mentes reescrevem os acontecimentos. Elas constroem uma nova narrativa na qual Alice ainda está viva, ainda pode ser salva e ainda existe uma chance de corrigir os erros cometidos. A partir daí, tudo o que vemos seria uma espécie de alucinação compartilhada, uma reconstrução mental criada para oferecer aos pais uma segunda oportunidade simbólica no dia, que concidentemente, é Halloween. 


Diversos detalhes parecem sustentar essa hipótese. Logo no início, Alice menciona ter chegado à floresta por volta das 22h. Entretanto, quando os pais estão na estrada, já são aproximadamente 3h da manhã. Existe um intervalo de tempo considerável que o filme nunca explica de maneira satisfatória. Tempo suficiente para que os eventos reais tenham ocorrido antes da narrativa que acompanhamos, tempo suficiente para que os pais tenham na verdade sido intoxicados com monóxido de carbono. Lembra do alarme de incêndio piscando sem motivo na cena inicial do filme? Pois é, havia um vazamento na casa.

Isso se conecta diretamente à figura da misteriosa mulher ao telefone. Se entendermos essa personagem como uma manifestação da consciência dos protagonistas, seus diálogos ao telefone tornam-se ainda mais significativos. Em determinado momento, a "desconhecida", sugere que as pessoas criam histórias para si mesmas. Mais tarde, praticamente desafia os pais a criarem uma história melhor porque a que eles criaram não é convincente.

Essa fala parece resumir todo o filme. Nesse sentido, Hallow Road não fala sobre fadas ou bruxas habitando uma floresta. Fala sobre os fantasmas que carregamos dentro de nós. Uma fala é muito clara: "Nenhum pai, ou mãe, quer ser o monstro do seu filho." O verdadeiro horror não está no folclore local nem nos eventos sobrenaturais sugeridos pela trama. Está na possibilidade de que o ser humano seja capaz de fabricar uma realidade inteira para escapar de uma dor impossível de enfrentar: a dor de matar o próprio filho(a).


O final reforça essa leitura. Quando finalmente chegam ao local do acidente e percebem que a vítima é Alice, a mãe entra em completa negação. Já o pai parece oscilar entre a fantasia e a consciência. Em um instante, questiona sobre o que exatamente estão falando quando a Meddie comenta sobre a conversa que estavam tendo com a Alice dentro do carro, como se por um breve momento enxergasse a verdade escondida sob toda aquela construção mental. É um lampejo de lucidez, de verdade, como na cena final, da polícia chegando, e comentando sobre o estado mental dos pais, que obviamente estão perdidos em meio ao delírio. 

No fim, a estrada sem volta do título pode não ser a floresta. Pode ser o próprio trauma. Porque existem acontecimentos dos quais ninguém realmente retorna. Tudo o que resta é encontrar uma história capaz de permitir que continuemos por caminhos alternativos.

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