É destaque no Blog da Intrínseca | Entrevista com o escritor Jeff VanderMeer

sexta-feira, maio 27, 2016


Alternando pontos de vista, locais e épocas distintas, a série Comando Sul é uma das mais inovadoras obras de ficção científica dos últimos anos. Envolve o leitor em um mundo onde criaturas estranhas e fenômenos incomuns são norma, e cabe ao governo local buscar algum sentido nos acontecimentos em torno da região isolada do resto do mundo conhecida apenas como Área X.

Editor e autor premiado, Jeff VanderMeer já teve seus livros traduzidos para vinte idiomas e garantiram ao escritor três World Fantasy Awards, além de indicações para os prêmios Hugo e Bram Stoker. Ele cresceu nas Ilhas Fiji e hoje mora em Tallahassee, na Flórida, com a esposa. Publicou também pela Intrínseca a trilogia Comando Sul, cujo primeiro volume, Aniquilação, foi vencedor do Nebula de melhor romance em 2014.

Para apresentar a série, que chegará aos cinemas em 2017, a equipe a Editora Intrínseca fez uma entrevista exclusiva com o autor. Confira:

Que autores e obras literárias serviram como fonte de inspiração para a trilogia Comando Sul?

Quase 80% da trilogia reflete e é inspirada em minhas experiências do mundo real. O primeiro livro inteiro, por exemplo, tem como cenário uma trilha de 22 km do St. Marks Wildlife Refuge, aqui na Flórida. Várias experiências estranhas de trabalho influenciaram o segundo livro, Autoridade, e o terceiro volume reflete meu amor por diversos sítios naturais dos Estados Unidos. É difícil pensar em influências literárias, porque é muito provável que sejam todas inconscientes, já que passei anos estudando todo tipo de estrutura de narrativa. Virou tudo adubo para a parte mais profunda do meu cérebro, várias camadas de material sedimentar alimentando minha forma de fazer ficção de um modo que muitas vezes é invisível para mim. Então até posso dizer que amo A montanha morta da vida, de Bernanos; Os salgueiros, de Blackwood; ou qualquer livro de Angela Carter e Nabokov, mas não sei se faria muita diferença. Além disso, a trilogia contém tantos traços dethriller, de ficção científica e de weird fiction que cada leitor vê referências diferentes.

Qual é a sua relação com a produção do filme de Aniquilação? Você recentemente anunciou que Oscar Isaac fará parte do elenco… Tem mais alguma coisa que você possa compartilhar com os leitores brasileiros?

Bem, a expedição do filme de Garland conta com cinco membros, então ainda falta anunciar um ator. Além disso, a versão dele começa na agência Comando Sul, portanto tem mais três ou quatro membros da agência no elenco, e os atores em breve serão anunciados. Vi algumas fotos do set e gravações de testes ainda da pré-produção e acho que pode se tornar um dos filmes com cenários mais estonteantes que já vi. O tom geral e as paisagens serão bem parecidos com os do livro, mesmo que os eventos do roteiro sejam um pouco diferentes.

O elenco anunciado de Aniquilação

A série apresenta conceitos e temas que podem parecer muito complexos para quem nunca teve contato com o “New Weird”. Como apresentar a trilogia para novos leitores?

O que é “New Weird”? Nome de um perfume? Uma marca de produtos de supermercado? Bem, independentemente do que isso seja, posso afirmar que meus livros são sobre pessoas honestas tentando compreender o que não conhecem em meio a situações desesperadoras. Os livros tratam de expedições fascinantes em meio à natureza estranhamente “imaculada”, de burocracias ineficazes do governo e dos vários modos que tentamos — e não conseguimos — nos relacionar na era moderna. Além de tratar de como o insólito — o weird — está em todos os aspectos da vida cotidiana, a trilogia Comando Sul é — espero — uma história de aventura e mistério, um suspense que vai se construindo aos poucos.

Outro aspecto importante é a diversidade de personagens, uma vez que a maioria dos livros de ficção cai no clichê do homem branco hétero. O que o levou a quebrar esse padrão?

Nunca aderi ao padrão do personagem homem branco hétero, nem mesmo nos primórdios da minha ficção, durante a adolescência, porque um futuro só com gente branca parece bem bizarro e bastante improvável. No caso de Comando Sul, inclusive na agência secreta, os personagens refletem a diversidade do mundo como eu o vejo — e como o vi durante todos os anos de trabalho formal antes de ser um escritor em tempo integral. É mais uma reflexão do que uma tentativa de afirmação. Não fazer isso seria deixar de lado a diversidade e criar um falso retrato do mundo real. Dito isso, quando no primeiro livro eu ainda tinha quatro personagens sem nome, perguntei a mim mesmo se seriam homens ou mulheres. E achei que seria muito mais interessante se todas fossem mulheres, porque o mais comum é serem vários homens e uma mulher, ou algo do tipo. Então disse a mim mesmo: “Vão ser todas mulheres por enquanto, mas vou reconsiderar isso se as personagens não estiverem completamente formadas em uma semana.” Na manhã seguinte, porém, eu já sabia quem todas elas eram, suas vidas passadas e tudo o mais, então soube que tinha acertado.


Em Aniquilação, a bióloga usa seus sentidos para analisar a Área X, o que faz uma grande diferença. As descrições com frequência incluem sinestesia. Isso também é uma coisa que você experimenta, ou foi apenas um recurso para aumentar a sensação de estranhamento?

Ao entrar em contato com a natureza, eu já tive essa sensação de total epifania e felicidade que a bióloga vivencia em alguns momentos de Aniquilação. Lugares como esses me proporcionam uma fonte de conforto e a sensação de que tudo está correto. Isso acontece sobretudo em paisagens costeiras, porque fui criado em Fiji. Acho relevante dizer que algumas das características e experiências consideradas estranhas em relação à bióloga são coisas que todos nós experimentamos em diversos momentos da vida. Às vezes acho que isso acontece quando entendemos como as coisas deveriam ser e as relacionamos com como elas são, e às vezes acho que é porque, de certa forma, nossos cérebros sabem do que precisamos — temos sentidos tão limitados, e de vez em quando algumas coisas pairam no limiar do alcance desses sentidos nos impelindo a ver o mundo de uma forma mais ampla. Nesses momentos, quando percebemos isso, tudo parece mais brilhante.

Uma das características mais impressionantes da série é a forma como o ponto de vista muda ao longo dos livros — indo da primeira pessoa em Aniquilação para a terceira em Autoridade, e incluindo muitos pontos de vista diferentes em Aceitação, inclusive a segunda pessoa. Isso foi planejado desde o princípio, ou algo criado no processo? Quão desafiador foi escrever a mesma história de tantas perspectivas?

Em certa medida, eu não tinha como *não* mudar de ponto de vista. Nunca escrevi o mesmo livro duas vezes, e seria chato escrever Aniquilação três vezes, por assim dizer. Além disso, ao criar uma série de livros sobre algo além da capacidade de compreensão humana, queria os personagens mais intrinsecamente falhos — ainda que intensamente humanos — que eu pudesse criar para contrabalancear o desconhecido. E eu queria que o conhecimento do leitor acerca do mistério central fosse se desenvolvendo através das diversas experiências dos personagens. Odeio livros em que tudo acaba muito bem explicado, como uma apresentação. E odeio livros em que um personagem tem uma epifania pouco realista e resolve o mistério do nada. Por isso os diversos pontos de vista ajudaram. A segunda pessoa funcionou bem para narrar um personagem que é basicamente um fantasma, mas, além disso, a composição foi muito importante para o terceiro livro. Não é só um recurso inteligente. De muitas maneiras, é o mais próximo que podemos chegar da Área X.



Créditos: Editora Intrínseca 

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